(23:30 h)

a cada quadra o mundo muda
          tanto
que a noite treme

estamos todos travando uma guerra invisível
          isto
eu havia esquecido

há guerra em todas as partes
          nos átomos
          nas células
          entre os membros do mesmo corpo
          sob os mares
          rodeando os espíritos
          há guerra nos olhares
          presas às preces há guerras
                    inconfessáveis
          as veias lutam contra as artérias
          e no próprio centro da razão
          há uma guerra
          de prontidão
porém
um suspiro ao meu lado
um olhar de meia lua
um lábio vermelho e sedoso
          o que digo?
dois lábios vermelhos e sedosos
os cabelos desesperadamente ruivos
e um modo de andar
que traz o compasso da eternidade
          ou quem sabe
          um pouco menos do que isso
os joelhos os calcanhares e os tornozelos
em completo entendimento
e um perfume desenfreado
que derruba todos os outros perfumes
          de modo
          que
          nada mais importa
a partir de agora
não existe
guerra alguma

entretanto
nem mesmo a beleza me comove
          talvez
          apenas
          estimule

pois então
          quase que sem palavras
nós dois
          num minúsculo
          momento de paz
nos encontramos
nos experimentamos
nos amamos
e nos despedimos


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(23:38)

então aprenda
camarada
a conviver com tudo isso
          com a memória
                    que se desfigura
          com o agente da funerária
          e com o manobrista
          com a anfitriã
          e se nada me falha
          com os garçons
          e com o cominho
          e aprenda a conviver
          também
          com o juiz
          e com a sua digníssima senhora
          e com os réus
          e com os outros
                   todos
                   aqueles
                   que viveram
                   tanto quanto eu
                   naquela tarde
                   inesquecível
mas
enquanto a noite ainda treme
estou aqui
sob o caramanchão
na entrada do restaurante
na fila de espera
para que então
eu possa aprender
definitivamente
a encarar os seres
tão parecidos
e tão diferentes
          somos deste modo
          cada um
          uma partícula caída do paraíso
                    aliás
                    que lugar é esse
                    de onde
                    a cada dia
                    somos
                    expulsos
                    novamente?

mesmo assim
sou o último da fila
por estar sozinho
          enquanto espero
          senhoras e senhores
          imagino
          que sou poeta
          um duradouro poeta
          daqueles velhos
          bem velhos
          que campearam
          amaram
          e destruiram
          e desertaram
          e construíram
          torres
          e imaginários países
          devo ser também
          um daqueles poetas
          de quem não percebi
          entre os versos
          uma espécie de silêncio
          que nunca deveria ser esquecido
sim, o silêncio
eis a solidão
de um homem
que está no último lugar da fila
          isto
          é o mesmo que imaginar
          vertigens:
          por exemplo,
          estamos todos mortos
          estamos todos vivos
          o manobrista
          está morto e está vivo
          a anfitriã do restaurante
          os seguranças
          os garçons
          o cominho
          os réus e os juízes
                    as pessoas
                    estarão sempre à minha frente
                    vivas
                    mortas
                    e completamente famintas
(00:17 h)

então aprenda camarada
a cair
é que depois da sua queda
virão outras
outras quedas voltarão
voltará aquela do perturbado Lúcifer
e a queda do fruto sobre o descanso de Newton
recorde-se da queda do Paraíso
aquela do pai Adão
o nosso papai
absurdo
e a queda da Bolsa
ela se repetirá
e cairão novamente
os netos
daqueles que já saltaram
dos edifícios
e há sempre a inexorável queda
do seu próprio corpo
isto mesmo
mas não se atormente
esse seu corpo cairá
brevemente
e mesmo assim ele continua
pedindo
por mais degraus
por mais tempo
de vida
diga
foi difícil
diga
aqui entre nós
foi difícil enfrentar
a todos?
o restaurante parecia o paraíso
estavam todos lambendo-se de tão vivos
mas não esqueça
nunca
de onde viemos
lembre-se de tudo
como se alguém lhe pedisse
encarecidamente
não desista
então vá camarada
ainda lhe resta a metade de uma garrafa de vinho
ainda lhe resta
a caixinha de pílulas
saia do restaurante
não esqueça do garçom e do cominho
eles também merecem
um pouco do inferno do purgatório e do paraíso
e lembre-se
não há saída
então aprenda
a descer a ladeira
até o ponto onde a alameda se disfarça
de escuro
um fundo muito escuro
onde as almas
por todos nós rejeitadas
tropeçam
e se elevam
obstinadamente
(00:48 h)

iroqueses e algonquinos
uní-vos
deserdados e exilados
agostinhos
e expeditos
Úrsula e Joana
e os esquimós dançando
tragam os nômades
os ciganos
os palestinos
e todos aqueles que cambaleiam
unam-se a nós
no útero desta terra
faz escuro
e ninguém canta
estamos amontoados
sob o viaduto
entre uma alameda e outra
por cima a fortuna escoa
somos nós
quem sorrimos
garrafa de mão em mão
somos nós
a verdadeira sombra
a única
aquela que cai e levanta
obstinadamente
todos nós em um só corpo
em um só monturo
não
não temos nome
nem temos face
brasa de mão em mão
estamos soterrados
pelo eterno terremoto
sente-se aqui
ele diz
o homem livre
aquele de barbas longas cabelos longos
unhas longas unhas sujas
encravadas na sacaria
ele diz
acomode-se, meu filho
bem aqui ao meu lado
somos um só
somos todas as mulheres
somos todos os homens
neste canto de mundo
eu digo
malditos fantasmas
presos à minha pele
sou eu sou eles somos nós os santos
somos
os intestinos
dos santos
e também das tribos das línguas dos rituais
esquecidos
sou os fantasmas grudados à minha pele
como uma coceira
de todos os homens perdidos
não
não estamos perdidos
ele diz
nada é inútil
mas
tudo é desperdício
onde o animal humano toca
senta
deita
ama
e sonha
o que resta é lixo
somos animais doentes
predestinados à doença
somos assim
sujos
olhe em volta
por onde andamos
deixamos nossa marca
e é só isso
ele diz
sorrindo
(03:54 h)

          devo ter adormecido
          devo ter sonhado
          sentado
          ao lado do homem livre
e você vinha com o formato das águas
saía das águas
como que abençoando
a todos
e já ia tomando o feitio de gente
gostaria de sonhar que você vinha
de um outro modo
que trafegava
entre as estações
que baldeava
entre cidades antigas
como aquelas por onde os primitivos
mascates
corriam
de casa em casa
no meio das estações
havia uma educada maneira de viver
naquele tempo
tirava-se o chapéu
em cumprimento
as calçadas já iam se iluminando
mesmo
antes
do final
das tardes
e as cidades eram todas santas
você aparecia na janela de um trem
e nós íamos
até perto de Ribeirão
no vagão Pullman
suas mãos enluvadas
minhas calças curtas
o vagão-restaurante
era tão íntegro
e tudo parecia distante
tudo que aparecia
vinha de um hemisfério diferente
assim como as palavras
que eu mesmo ia soletrando
elas vinham voando
e não era o trem que voava
era o mundo
foi assim a minha infância
foi assim a sua infância
nós íamos
soletrando o universo
e cada nova palavra
era um estampido
um despertar
um desmergulho
ou seria uma fonte
o lugar
de onde você saía?
não
não era um rio certamente
estávamos num submarino?
éramos um corpo somente?
abríamos a escotilha
para angariar o céu
para todos os pobres deste mundo?
ah mãe
bela e destemida
orando ao entardecer
nunca para si
mas para aqueles de nós
que ainda estão
nos portarretratos
do seu quarto
para todos aqueles que somos
filhos
netos
filhos dos netos
e seu adorado marido
todos nós ficaremos bem
mesmo que estejamos
pranteando
ternamente
em torno do seu corpo
          abençoado sonho
          em que você volta
          só pra dizer:
          não há nada que nos separe
(04:40 h)

ao homem livre
digo adeus tristemente
          lembre-se
          a vida é treino
          treinamos para a amnésia
          somos o prenúncio
          do esquecimento
          disse ele
          que se foi
          como veio

a minha triste tribo
está recolhida
não há como medir o silêncio
piso em um milhão de anos
a cada passo
e não há como medir o silêncio
dentro do próprio silêncio
entretanto
coleto as sombras do viaduto
uma a uma elas também me agarram
sou como uma sombra que anda
o nome da minha aldeia é imensidão
eis a labuta
novamente
eis o cansaço
vagar de um extremo ao outro
tendo a História enredada na pele
agora sei que meu nome é passado
deixo a vocês
como testamento
um antro de miséria
e riqueza
atrás de cada porta
uma língua decepada
ao dobrar a esquina
um cão sonolento
desejando afago
e luzes
a todos vocês
deixo
um corolário de luzes
a cada piscar de olhos